segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Início de temporada com Cronenberg

Neste último sábado, a primeira sessão do Ciência em Foco inaugurou a temporada 2011 com mais um filme de David Cronenberg. Depois da exibição de Rabid, no ano passado, a obra do cineasta canadense foi mais uma vez centro das atenções com seu clássico Videodrome. Desdobrando questões a partir do filme, Tadeu Capistrano, doutor em Literatura Comparada pela UERJ e professor de Teoria da Imagem da EBA/UFRJ, nos apresentou um panorama dos temas do diretor e o quão relevantes são suas abordagens para se pensar a contemporaneidade.

Ainda que Videodrome seja um filme ancorado nos anos 80, com sua emergente cultura do vídeo, Tadeu mostrou que as questões que ele evoca são bastante atuais, com a multiplicação das tecnologias de imagem e a virtualização crescente de nossa relação com o mundo e com os outros. Em uma época em que corpos apáticos precisam de experiências radicais de excitação (como aquelas produzidas pelo horror e a pornografia), estas novas formas de espetáculos proporcionados pelas novas tecnologias dão a ver uma espécie de nova carne, ou um novo estatuto para o corpo e para o sujeito, confundindo-os com os produtos da mídia e da tecnociência.

Quando a velocidade atua na visão (um processo que pode ser entendido a partir do conceito de dromoscopia, do pensador francês Paul Virilio) é desencadeado um movimento acelerado que permite a suspensão da reflexão e a abertura para a possível manipulação cognitiva, produzindo alucinações com a alteração da nossa percepção da realidade. Deste modo, a ficção do filme nos faz pensar sobre nossa própria experiência, em uma sociedade cada vez mais mediada por aparatos tecnocientíficos e pelos interesses das empresas e organizações que os controlam. Este seria o provável teor político de seu cinema: a forma anárquica pela qual os corpos reagem a este controle social, desestabilizando a ordenação biopolítica imposta pelas estruturas dominantes.

Mais uma vez, Cronenberg rendeu um produtivo debate. Em março, devido ao carnaval, não haverá sessão. Retornaremos no dia 2 de abril com a exibição do filme Blow-up (1966), de Michelangelo Antonioni, seguido da palestra A tarefa do tradutor no Cortázar de Antonioni, ministrada pelo professor Patrick Pessoa, que é Doutor em Filosofia pela UFRJ e professor do Departamento de Filosofia da UFF, onde pesquisa a relação Cinema e Filosofia. Patrick também é autor do livro A segunda vida de Brás Cubas: a filosofia da arte de Machado de Assis. Fiquem ligados no nosso blog para maiores informações e curiosidades.

2 comentários:

  1. Prof. Tadeu é fera, já fui aluno dele na graduação e jornalismo! Parabéns professor!! abs

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  2. É muito interessante pensar como certas obras (literárias ou cinematográficas) traduzem certas realidades inerentes à época de sua produção. No caso, o filme Videodrome de David Cronenberg apresentou, no estilo autoral do diretor, questões perturbadoras da década de seu lançamento, mas que ainda se mantém atuais. A película é pontuada por um discurso polissêmico que pode dar origem à múltiplas interpretações.
    Um aspecto ressaltado por Tadeu Capistrano é crucial para se fazer o link da trama com aspectos da contemporaneidade: o processo de virtualização dos personagens do filme. Esse aspecto se manifestou nos últimos anos com o Boom de redes sociais como Orkut e Facebook, sendo que este último rendeu um filme sobre seu bilionário criador.
    O contexto aparente é: Se as fotos de um evento não forem postadas na internet é como se o mesmo não tivesse ocorrido; se um acontecimento não vira notícia na TV é como se não tivesse existido; se algo não for escrito em livros de História não se torna um fato.
    Outra curiosidade é a busca incessante do protagonista, Max Renn, por uma atração que oferecesse emoções reais e intensas para os telespectadores. Ele encontra no subversivo programa Videodrome a válvula de escape ideal para esse público ávido por sexo e violência. Acredito que não seja um absurdo afirmar que o Videodrome é o agora!
    Alguns “reality shows” na TV aberta expõe seus participantes a situações de dor e humilhação. No Brasil, o mais famoso deles, “Big Brother” tem apelativo conteúdo sexual e na Internet existem milhares de vídeos com pré-adolescentes dançando lascivamente ou se despindo em tempo real em webcams. Ou seja, o subversivo, o x-rated, o underground tornou-se Instituição, sendo transmitido no horário nobre para milhões de pessoas.
    O professor Tadeu Capistrano salientou a idéia dos corpos apáticos, insatisfeitos em sua essência que buscam superexcitação e experiências. A TV e as redes sociais podem saciar seus desejos.
    A televisão ainda ocupa lugar de destaque como meio de informação e entretenimento barato, mesmo com o advento da internet. O poder que a TV exerce no personagem Max Renn (James Woods) pode servir como exagerada e estilizada metáfora para o modo como as pessoas podem ser influenciadas e manipuladas pelas notícias e por “gurus” televisivos.

    Rogério Marques_ rogerdepaiva@gmail.com

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