terça-feira, 26 de abril de 2016

Sonho e vida desperta: por onde caminha a existência?



Ciência em Foco deste mês de maio traz à cena um “sonho visto por dentro”. Essa é (ou parece ser?) uma boa imagem para descrever o filme Waking Life (2001), do diretor americano Richard Linklater. Nele, um garoto acorda no interior de seu próprio sonho e passa a refletir e a conviver com personagens reais de sua imaginação. Para debater a temática desse longa metragem após a sessão, o convidado é Ricardo Kubrusly, poeta e matemático, professor titular do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia da UFRJ (HCTE).

O filme, por si, é inusitado, pois uma vez filmado com atores e cenas reais, teve sua película  submetida a um processo chamado rotoscopia. A técnica, desenvolvida pelo animador Bob Sabiston e aplicada por vasta equipe de seu estúdio, permite pintar cada fotograma, incluindo novas cores, formas e desenhos. Estima-se que cada minuto do filme exigiu 250 horas de trabalho dos animadores, atribuindo-lhe peculiaridades de cada desenhista.

Em uma cena de TV, que ganha existência dentro do sonho do protagonista da história, ouve-se considerações sobre a prática de xamãs e visionários que “aperfeiçoaram a arte de viajar pelos sonhos, o chamado estado lúcido do sonho, no qual controlando-se  os sonhos  pode-se  descobrir coisas para  além da nossa apreensão no  estado desperto”. O filme explora essa lucidez onírica ao máximo, o que leva o professor  Kubrusly  a perguntar  - Sonhos como destino: o que nos faz pensar que estamos vivos?  E completa o tema de sua conversa ponderando: “Estarmos vivos, conscientes das nossas transformações, do mundo que nos cerca e de nossa participação nele, decorre necessariamente de uma ordenação temporal dos acontecimentos. Ao rompermos com a causalidade que nos ampara e, consequentemente, com os princípios clássicos das lógicas da normalidade, como fazemos nos sonhos de cada dia, o que nos fará pensar que estamos vivos?

Assista Waking Life e confira: quem sabe não sejamos personagens do sonho sonhado por outra pessoa!

O Ciência em Foco acontece sempre no primeiro sábado de cada mês, às 16 horas e a entrada é franca.

quarta-feira, 30 de março de 2016

“Xapiri”: espíritos yanomamis capturados na tela


Em abril, Ciência em Foco apresenta um filme experimental produzido por ocasião de dois encontros de xamãs na aldeia de Watoriki, Roraima, em março de 2011 e abril de 2012 : Xapiri. Seus autores Leandro Lima, Gisela Mota, Laymert Garcia dos Santos, Stella Senra e Bruce Albert realizaram a filmagem a partir de um propósito do líder e xamã Davi Kopenawa: promover um encontro de xamãs de todo o território yanomami localizado no Brasil, com vistas ao fortalecimento da preservação e da continuidade da cultura tradicional desse povo indígena. Sua exibição no próximo sábado, será acompanhada da palestra “O xamanismo na era de sua reprodutibilidade técnica”, por Pedro Ferreira, doutor em Ciências Sociais, professor do Departamento e do Programa de Pós-Graduação Sociologia da Unicamp.

Segundo Pedro Ferreira, “xamãs indígenas são, na formulação do famoso historiador das religiões romeno Mircea Eliade, ‘técnicos do êxtase’. Assim, é compreensível que xamãs indígenas reconheçam seus próprios poderes e habilidades quando diante de máquinas e tecnologias trazidas por brancos para suas comunidades.” Porém, o professor da Unicamp indaga: podem os xamãs serem técnicos, e as máquinas serem xamânicas? E o que isso nos ensina não apenas sobre o xamanismo, mas principalmente sobre nossas próprias máquinas e tecnologias?

O público do Ciência em Foco, ao assistir Xapiri (termo yanomami para designar tanto os xamãs, os homens espíritos - xapiri thëpë - quanto espíritos auxiliares - xapiri pë), terá a oportunidade de ver o modo pelo qual os xamãs incorporam os espíritos e como seus corpos e vozes se transformam.  Não se trata, portanto, de explicar o xamanismo, mas de torná-lo visível e sensível a públicos de culturas diferentes.

O Ciência em Foco acontece sempre no primeiro sábado de cada mês, às 16 horas e a entrada é franca.


terça-feira, 8 de março de 2016

Corpo e vida, para além dos códigos e do controle



No último sábado aconteceu a sessão inaugural da temporada 2016 do Ciência em Foco, com a exibição do filme 'Gattaca: a experiência genética', de Andrew Niccol, seguido da palestra "'Válidos, úteis e produtivos: corpo e vida entre os efeitos da tecnociência", ministrada pela professora do Departamento de Antropologia Cultural do IFCS/UFRJ, Daniela Manica.

Daniela destacou elementos que nos ajudam a pensar, a partir da ficção científica, sobre as transformações contemporâneas das definições do humano. Os processos tecnocientíficos atuam hoje cada vez mais sobre o corpo e a vida, codificando-a e alterando nossas relações com a reprodução, a saúde, o trabalho. À exigência de controle, facilitada pelas novas tecnologias, se soma um novo ideal de produtividade que parece ignorar o acaso, os afetos e os desejos, intensificando as desigualdades e a discriminação. Da engenharia genética aos dilemas sociais urgentes que nos inquietam, o prolongado debate mostrou que qualquer semelhança entre a ficção científica e a nossa realidade não é mera coincidência.

Em alguns dias divulgaremos nossa próxima sessão, que acontecerá no dia 2 de abril, o primeiro sábado de abril. Anotem na agenda e fiquem ligados para mais detalhes. Em breve, também publicaremos mais alguns videocasts de nossas palestras, lá na playlist do Ciência em Foco, no canal do YouTube da Casa da Ciência. Fiquem ligados!