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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Qual a imagem daquilo que não se vê?
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terça-feira, 9 de agosto de 2011
Resistir ao estado de exceção da imagem
Neste sábado, o Ciência em Foco exibiu o clássico Fahrenheit 451 (1966), de François Truffaut, baseado no livro de Ray Bradbury. Tivemos a alegria de receber, como nossa convidada do mês, Marcia Tiburi, com a palestra Entre a escrita e a imagem. Marcia é doutora em filosofia pela UFRGS e professora do programa de pós-graduação em Arte, Educação e História da Cultura da Universidade Mackenzie, SP, e recentemente lançou o livro Olho de vidro: a televisão e o estado de exceção da imagem. Situando algumas questões em torno da relação entre cinema e pensamento, Marcia apontou uma propriedade dos filmes que nos permite pensar a respeito da própria atividade cineclubista: ao comentar que sempre há uma teoria dentro de um filme, que os filmes são sempre discurso, ela chamou atenção para o fato de nós desconfiarmos sempre daquilo que vemos, de que o olhar não promove acesso à certeza. Decorreria daí, portanto, a necessidade de se conversar sobre os filmes e de vê-los em conjunto.
No caso do filme de Truffaut, ele se projeta como um retrato bastante atual da nossa sociedade do espetáculo, na qual os livros não têm mais tanto espaço, apresentando a violência que a ditadura do visual impõe ao verbal. Na adaptação do livro de Bradbury, Truffaut explora esta realidade distópica com as imagens, na própria estrutura do filme, que nem mesmo apresenta palavras na forma de créditos iniciais. De saída, o espectador é lançado em uma realidade hostil à palavra. Marcia até alertou que hoje nós deveríamos já pensar em decorar alguns livros, como os personagens que são as pessoas-livro, no filme. A partir das ideias de Guy Debord, Marcia comentou sobre a transformação da imagem em capital, que passa a nortear todas as nossas relações.
Em Fahrenheit 451, a palavra é entendida como uma coisa perigosa, e até mesmo o ato de conversar não é desejável. Marcia contrapôs a conversa à tagarelice, que impera em nossa sociedade hipertrofiada de imagens, estimulando a imbecilização do mundo quando o espaço da palavra é esvaziado. Este cenário é alcançado quando se tornam homogêneos e apáticos os comportamentos, com o recalque às emoções e afetos - uma realidade que hoje vemos espalhada nas formas de psiquiatrização do mundo, ocupadas em docilizar as pessoas. Constrói-se assim um estado de coisas autoritário, possibilitado pelo enrijecimento da emoção e do afeto, impondo uma pretensa racionalidade avessa à variedade, à diferença, favorecendo a rejeição do outro. No filme, a TV é um dos meios para se atingir esta alienação dos indivíduos, tornando-os desconectados do mundo e de si mesmos. Seduzido pelo espectro que emana da tela, o espectador é aprisionado em ilusões de certezas que provêm do olhar, lançando-nos em um dilema platônico: acreditamos que tudo vemos enquanto estamos, de fato, imersos na ignorância acerca do sentido da nossa própria visão.
Esta captura espetacular pela tela proíbe o acesso à palavra, à conversa, constituindo um estado de exceção e uma lei da qual decorre um controle introjetado e assumido pela própria cultura dos indivíduos. Mas como resistir à cultura do espetáculo? A resistência aparece, no filme, na figura das pessoas-livro, excluídas da sociedade por não agirem e pensarem como os outros. A partir da lição delas, seria preciso subverter o jogo e criar uma outra realidade a partir das margens, onde o pensamento insiste diante da hostilidade dominante. Ela evocou diversos conceitos de pensadores diversos, como a mera vida, de Walter Benjamin e o estado de exceção, de Giorgio Agamben. Tivemos um debate bastante proveitoso, no qual foram discutidas possíveis saídas criativas para a transformação deste estado de coisas.
Continuaremos pensando as imagens em nossa próxima sessão, quando exibiremos o filme Guerra sem cortes, de Brian de Palma, e teremos a alegria de receber, como convidado de setembro, o professor do Departamento de Letras da PUC-Rio Karl Erik Schollhammer, doutor em Semiótica pela Aarhus Universitet, Dinamarca. Ele publicou, dentre outros livros, Além do visível, Linguagens da violência e Ficção brasileira contemporânea. Anotem na agenda, divulguem e não deixem de acompanhar o blog para maiores informações.
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quarta-feira, 27 de julho de 2011
Marcia Tiburi, para além da imagem
Nossa convidada do mês é filósofa, escritora, professora do programa de pós-graduação em Arte, Educação e História da Cultura da Universidade Mackenzie (SP), e também integrou por 5 anos a equipe do programa Saia Justa, do canal de TV a cabo GNT. Nesta conversa, Marcia Tiburi comenta alguns aspectos da dimensão filosófica que pode ser explorada a partir do filme de Truffaut, convidando nossos "olhos hipertrofiados de tanto ver" às aventuras do pensamento."O grande alcance do filme se deve ao fato de que ele é uma teoria da imagem que se faz pela imagem, ou seja, é “metaimagem”. Raramente um procedimento imagético consegue ser crítico da imagem. Neste sentido, o filme de Truffaut não é apenas uma boa exposição do conteúdo crítico em relação à autoritária sociedade do espetáculo, em que vige o vazio do pensamento, mas a tentativa mesma de mostrar isso com os meios do espetáculo."
1) Como foi seu encontro com o cinema? E por que falar a partir dele?
Talvez você considere minha resposta decepcionante, mas devo declarar que não tenho nenhuma preferência pela forma “cinema”. Assim como não assisto televisão, não acompanho a programação das salas. Assisto a poucos filmes, embora tenha um telão bem grande na minha sala. Assisto, em geral aos que me interessam de um ponto de vista teórico. Meu fundamental interesse pelos filmes está na revelação de uma teoria apresentada como forma e conteúdo. Filmes são, muitas vezes, sistemas teóricos no sentido de serem uma exposição estética, ética e metafísica.
2) O filme Fahrenheit 451, baseado no livro de Ray Bradbury, apresenta uma distopia na qual a forma de controle social se baseia na proibição da leitura. De que modo o filme nos força a pensar, pela ficção e pelas imagens, a respeito da cultura televisual de nossa própria sociedade, tendo em vista as tecnologias de disseminação e proliferação das imagens no mundo contemporâneo?
O livro de Bradbury é excelente do ponto de vista da boa ficção científica como visão do futuro. Mas o filme de Truffaut é um dos casos excepcionais em que o cinema consegue ir mais longe do que um livro. Isso não diminui o livro de Bradbury, antes define a diferença e o mérito do filme de Truffaut. O grande alcance do filme se deve ao fato de que ele é uma teoria da imagem que se faz pela imagem, ou seja, é “metaimagem”. Raramente um procedimento imagético consegue ser crítico da imagem. Neste sentido, o filme de Truffaut não é apenas uma boa exposição do conteúdo crítico em relação à autoritária sociedade do espetáculo, em que vige o vazio do pensamento, mas a tentativa mesma de mostrar isso com os meios do espetáculo. Sob este aspecto o filme é vertiginoso.

3) Em seu recém-lançado livro, Olho de vidro: a televisão e o estado de exceção da imagem, há uma análise em torno da experiência subjetiva que a TV determina, considerada como uma prótese capaz de tornar passivo o espectador, confundindo e iludindo sobre a existência. O futuro que o filme de Truffaut apresenta, com sua crítica da imagem televisiva, poderia nos fornecer insumos para reavaliarmos os rumos de um futuro possível da TV, pensando em uma política das imagens que leve em conta a ética e a liberdade?
Decidi incluir no meu livro sobre televisão chamado Olho de Vidro a análise de três filmes: Videodrome (1983) de David Cronenberg, O Show de Truman (1998) de Peter Weir e Fahrenheit 451 (1966) de François Truffaut. Poderia ter usado outros filmes, mas estes eram carregados de conceitos que o meu livro queria explorar. No caso de Videodrome era o corpo. Em O Show de Truman era o espaço, o verdadeiro "campo de concentração" em que ele foi criado como experimento da indústria cultural da imagem. Fahrenheit entrou na segunda parte do livro intitulada "Tela" em que a categoria da superfície onde surge uma imagem era analisada. A questão seria entender o que acontece com a figura subjetiva de nosso tempo chamada "telespectador". Quem é esta pessoa? Como definir a experiência "formativa" por meio da qual alguém se torna "telespectador"? Certamente toda análise crítica visa à produção de liberdade e emancipação, por isso mesmo a crítica não visa jamais a doutrinação, mas a abertura da compreensão. Os rumos da produção televisual pertencem à capacidade de decisão humana no campo da política e também da ética. Tratei em meu livro a televisão como prática estética tendo em vista que toda prática estética tem uma ética e uma política.
3) Sendo o cinema uma mídia, assim como o livro e a TV, como situar então Fahrenheit 451 - o filme -, na tensão que oferece às relações entre estes três campos de experiência? Como a arte e o pensamento se insinuam em cada um?
Em primeiro lugar, a compreensão do termo mídia precisa ser melhorada. Eu não gosto de usá-lo, pois vejo que tanto o mundo especializado quanto o senso comum falam dele do mesmo jeito, ou seja, de um modo preconceituoso. Parece crítica, mas do modo como está sendo usado não passa de preconceito. E é também um pedantismo que liga especialização e senso comum num arranjo assustador. O que é mídia? Literalmente, conjunto dos meios. Se queremos usar com mais rigor o termo “mídia” temos que incluir o livro nisso. O livro é o mais antigo dos meios de expressão e comunicação. Na antiguidade ele também era considerado perigoso. Assim, prefiro separar televisão, cinema, livro, etc. Cada um tem suas características próprias. Assim, o que podemos fazer é uma comparação entre o filme e o livro, mas isso não nos leva muito longe, pois este tipo de análise muitas vezes se cancela em formalismos em que o alcance do livro e do filme são medidos. Acho isso muito pouco. Prefiro ver o que cada um nos mostra enquanto obra. Aplicar o conceito de obra de arte ao livro e ao filme é perfeitamente possível, mas não nos dirá muita coisa, pois aí teremos que fazer uma exposição do problema da obra de arte – e do conceito de arte. Prefiro ver o que a coisa pode nos dizer ou o que podemos ler com nossos olhos hipertrofiados de tanto ver em cada detalhe do filme.
4) Na sua opinião, qual a importância de atividades como os cineclubes enquanto espaços de pensamento e divulgação científica?
Os cineclubes podem ajudar a ver melhor enquanto promovem o debate, e permitem que se “pense na imagem”. A imagem não é reflexiva em si mesma e falar sobre ela, tentar compreender o que ela carrega de teoria é essencial para que ela não nos convença meramente de alguma verdade. A imagem é idolatria e mito, mexer com ela é iconoclastia e filosofia.
5) Você gostaria de fazer um convite para os cineclubistas virem assistir ao filme e participarem do debate em torno dele?
De nada adianta ver sem pensar.
7) Como conhecer mais de suas produções?
Entrando no meu Lattes, no Google, no meu site (verdade que está desatualizado e meus últimos 3 ou 4 livros não estão lá...)
Quem quiser entrar em contato com a Marcia, escreva para: marciatiburi2011@gmail.com
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sexta-feira, 8 de julho de 2011
Uma palavra vale mais do que mil imagens

Fahrenheit 451, título do filme que é atração do cineclube Ciência em Foco de 6 de agosto, faz uma referência à temperatura em que livros de uma sociedade totalitária são queimados. Nela, as crianças aprendem que livros são perigosos e não devem ser lidos e os adultos não se questionam sobre o que fazem. Tudo corre bem até que uma jovem da resistência pergunta a um bombeiro responsável por atear fogo em livros se ele já havia lido um dos milhões que queimou.
Inspirado no livro homônimo de Ray Bradbury e tido como um dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos, Fahrenheit 451 é ponto de partida para a palestra da filósofa e ex-integrante do programa da GNT Saia Justa, Marcia Tiburi. Será discutida a perda da subjetividade pela perda da palavra e o comprometimento dos afetos e da compreensão do mundo em função da fascinação pelas imagens. Qualquer semelhança com a sociedade em que vivemos não é mera coincidência.
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