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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A escola entrincheirada

No ar, o podcast da palestra “Aprender e ensinar, exercícios de estrangeiridade”, do professor de filosofia da educação da UERJ Walter Kohan. O filme a disparar a discussão foi Entre os muros da escola, que revela os conflitos sociais, culturais e de raça dentro de uma instituição escolar na periferia de Paris. Imperdível!

Clique abaixo para ouvir a palestra Aprender e ensinar, exercícios de estrangeiridade (59min.). Ou baixe aqui o arquivo zipado (55MB).






quarta-feira, 7 de março de 2012

Aprender sem um mestre: um paradoxo?

No último sábado aconteceu a primeira sessão de 2012 do Ciência em Foco. Pela primeira vez tivemos a honra de contar com o apoio da APILRJ (Associação dos Profissionais Tradutores/Intérpretes de Língua Brasileira de Sinais do Rio de Janeiro), que nos cedeu intérpretes de Português/Libras para cobrir a palestra e contemplar a comunidade surda. A abertura da temporada, com casa cheia, contou com a exibição do filme Entre os muros da escola (Entre les murs, 2008) seguido da fala do professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ, Walter Kohan, que pensou com o público questões em torno do aprender e do ensinar. Nosso convidado iniciou sua fala afirmando que o cinema oferece não apenas uma oportunidade de se experimentar sensações, mas que ele é, também, uma forma de produzir e gerar pensamento. Por isso, ele marcou sua escolha metodológica de não interpretar o filme, mas sugerir certas linhas e provocações para pensar em conjunto com a plateia.

Walter partiu de uma pergunta incontornável que atravessa os domínios da escola e da educação: o que significa aprender? Toda sua fala desdobrou as possibilidades e as potencialidades de cada resposta, situado em uma das cenas finais do filme, quando o professor indaga seus alunos sobre o que eles aprenderam ao longo do ano. Ao voltarmos nosso olhar para a realidade das nossas escolas, muitos professores parecem pensar que o ato de ensinar significa, basicamente, transmitir o que se sabe, ao passo que o aprender se limitaria a incoporar um saber que o outro foi capaz de ensinar. O filme de Laurent Cantet encenaria, portanto, o drama dos limites desta concepção do ensino e da aprendizagem, quando nos mostra alunos que afirmam não terem aprendido nada na escola. Como nos posicionar diante daquele que afirma que nada aprendeu? Haveríamos de limitar o ato de aprender aos conteúdos que a escola espera que o professor ensine? A escola parece pressupor uma certa relação com o aprender que se associa à capacidade de incorporar um saber que o outro - o mestre - saberia de antemão. No entanto, os alunos nos fornecem indícios de que há outras formas de se compreender a aprendizagem, para além da transmissão de um saber prévio a ser incorporado.

Lembrando a cena em que uma aluna menciona uma passagem da República, de Platão, Walter trouxe à discussão a indispensável figura de Sócrates, cujos exemplos por ele legados nos fornecem pertinentes questões sobre o tema discutido. O que de fato incomodava aqueles que acusaram Sócrates de corromper os jovens com suas ideias, era a concepção de uma outra forma de entender a educação e a formação das novas gerações, que entrava em desacordo com aquela valorizada em sua época. Defendendo-se, uma das justificativas de Sócrates foi afirmar que ele nunca transmitiu saber algum. A única coisa que ele sabe é a ausência de valor do seu saber, afastando com isso as pretensões do conhecimento. Porém, como explicar o fato de existirem os que aprendem com ele, se ele mesmo afirma não ter nada a ensinar? Para uma escola atual, a afirmação de Sócrates seria um verdadeiro escândalo: não se aprenderia, de fato, de alguém, mas com alguém. Portanto, não haveria uma relação entre a transmissão de saber e a aprendizagem.

Walter também comentou a relação do ato de ensinar com a linguagem, já que ela se configura como uma dimensão a partir da qual talvez mais se evidencie, no filme, os conflitos sociais, políticos e econômicos que perspassam o universo da escola e da sala de aula. Sendo o personagem principal um professor de línguas, sua atividade é também um convite a adentrar aquele mundo, já que uma língua pressupõe sempre aspectos políticos, éticos e econômicos nela distribuídos. Com este movimento, Walter procurou marcar o aspecto voluntário do aprender, que reside no fato de se aceitar o mundo que se abre com o ensino. Logo, quando um aluno diz que não aprendeu nada, a afirmação pode se constituir em um ato de resistência, uma forma de não aceitar o mundo que se apresenta e suas regras.

Nossa próxima sessão acontece no dia 7 de abril, com a exibição do filme Sem limites (Limitless, 2011), de Neil Burger. Estabelecendo um elo com a nossa exposição Cadê a química?, refletiremos acerca dos aspectos em jogo na crescente demanda por tecnologias de biorregulação do corpo e da mente, em prol da otimização da performance e da satisfação de necessidades. Teremos a honra e a alegria de receber, como convidado do mês, Benilton Bezerra Jr., que é psicanalista, psiquiatra, doutor em Saúde Coletiva pela UERJ, onde é professor no Instituto de Medicina Social e pesquisador do PEPAS - Programa de Estudos e Pesquisas da Ação e do Sujeito. Sua palestra se intitula Do cultivo da interioridade à biorregulação da experiência: o que está em jogo? Marque na agenda e até lá!




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Entre os frágeis muros de nossas escolas


"Não suportamos as escolas – sobretudo os que trabalhamos dentro delas! –, mas não conseguimos viver sem elas", Walter Kohan, Doutor em filosofia e professor da UERJ.

1) O filme Entre os muros da escola apresenta situações e embates que têm lugar no espaço fechado da sala de aula, como sugere o próprio título. Alguns críticos ressaltam até mesmo a neutralidade da câmera, capaz de incorporar aspectos disciplinares ao retratar este espaço e sua realidade, sugerindo comparações com o espaço vigiado da prisão. Em relação ao aprender, haveria maneiras de se contornar a solidez destes muros?


A questão dos muros é interessante. Num sentido, nossas sociedades comemoram a derrubada de alguns muros, físicos, como o de Berlim e simbólicos, como o dito, por exemplo, a respeito do ingresso da população negra à universidade brasileira. Em outros sentidos, porém, levantam-se muros de todo tipo em nome da segurança, privacidade, individualidade... Há um discurso duplo sobre os muros. A escola e a sala de aula em particular são lugares entre muros e há todo um discurso na retórica educacional que afirma a necessidade de superar esses muros, de levar a aula para espaços abertos, luminosos... Eu desconfio um pouco dessa retórica... Uma escola sem muros não é uma escola, pelo menos não uma escola moderna própria das sociedades como as nossas... Uma escola sem muros é uma ficção... Eu diria que mais interessante é a questão de como nos relacionamos com os muros, o que fazemos deles, para que os colocamos a trabalhar...

2) Bastante acolhido pela crítica, o filme Entre os muros da escola ganhou até mesmo a concorrida Palma de Ouro no Festival de Cannes. Seja como tema, personagem ou cenário, a escola está presente em diversos filmes. Como pensar o fascínio e a insistência dos múltiplos olhares sobre a escola? Por outro lado, haveria uma dimensão pedagógica na experiência de se assistir a um filme?



A escola é uma fixação para nossas sociedades. Sabemos de seu fracasso que constitui ao mesmo tempo seu sucesso. Não suportamos as escolas – sobretudo os que trabalhamos dentro delas! –, mas não conseguimos viver sem elas. Uma sociedade sem escolas, a utopia do genial Ivan Illich [filósofo austríaco (1926 - 2002) que criticava a institucionalização da educação propondo, no lugar de escolas, teias de aprendizagem que favoreceriam a autonomia e a liberdade do sujeito, aproximando o ensino da vida e das relações sociais], é impensável para nós. De modo que todo bom filme sobre a escola tem sucesso garantido... Sobre a segunda parte da pergunta, as relações entre cinema e educação são complexas. Temos por um lado a utilização pedagógica dos filmes, o que pode matar sua arte, como toda utilização pedagógica. Mas por outro lado, o cinema, como toda arte, pode ter impacto pedagógico. Podemos aprender muito assistindo a um filme. O problema é quando queremos que os filmes ensinem o que nós temos aprendido com eles, porque a experiência estética é uma e insubstituível e ninguém pode dizer o que o outro vai aprender com qualquer filme. De modo que, sim, o cinema é, num sentido, pedagogia, e da mais interessante, por gerar aprendizagens sem a pretensão de ensinar.

3) Em certa passagem do filme, o professor e os alunos comentam sobre um diálogo de Platão, evocando a figura de Sócrates, que valorizava uma relação com o saber condicionada pela ignorância e o questionamento constante. Tendo em vista o cenário da sala de aula e os próprios diálogos favorecidos por este ambiente, como pensar o papel do professor diante das ambiguidades que ele carrega, em meio às relações de poder que atuam no jogo do aprender e ensinar?

Sócrates é uma figura inspiradora para qualquer professor. É um mito, um impossível, um enigma, alguém que gera aprendizagens sem ensinar, alguém que vive uma vida insuportável para o estado de coisas e que, por isso, foi condenado. Alguém que não tem método e que sabe a única coisa que um professor hoje não poderia saber: que não sabe. De modo que Sócrates é inspirador para pensar o papel do professor como alguém que se preocupa mais que o outro desaprenda o que pensa que sabe e não que aprenda qualquer saber positivo que o professor já sabe. Claro que a questão do exercício do poder não é fácil e Sócrates não é justamente alguém que se caracteriza por afirmar relações de poder horizontais, como pareceria desejável, com seus interlocutores.

4) Contraplanos - expresse em poucas palavras (ou apenas uma) sua sensação com relação aos sentidos e problemáticas evocadas pelas seguintes palavras:


cinema – arte, beleza, experiência, sensibilidade, utopia
estrangeiro – diferença, outridade, hospitalidade
instituição – o que somos
a escola hoje – uma tortura, um desafio
aprender – para poder ser de outra maneira


5) Roteiros alternativos - espaço dedicado à sugestão de links, textos, vídeos, referências diversas de outros autores/pesquisadores que possam contribuir com a discussão. Para encerrar essa sessão, transcreva, se quiser, uma fala de um pensador que o inspire e/ou seu trabalho.

“É preciso que lhes ensine que nada tenho a lhes ensinar”
(J. Rancière. O mestre ignorante. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.)

6) Como conhecer mais de suas produções?

Penso que atualmente basta colocar meu nome no google e devem aparecer coisas...



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Um olhar atento sobre os muros da escola



Ficção ou documentário? Uma indagação sem resposta para Entre os muros da escola (Entre les murs), grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes (2008) e filme de estreia, neste ano, do Ciência em Foco, dia 3 de março, às 16h. O professor de filosofia da educação da UERJ Walter Kohan, convidado do cineclube, discutirá o filme após sua exibição.

Dirigido por Laurent Cantet, o filme reúne, de forma indissociável, a realidade a toda sua contingência dramática, a começar pelo fato de que o professor François Bégaudau é autor do livro que deu origem ao roteiro (também escrito por ele), interpretando a si mesmo nas telas. E assim também ocorre com todo o elenco, formado por estudantes reais, usando seus nomes verdadeiros: o “personagem” não é uma representação, mas a expressão legítima de suas próprias histórias.

Esta dimensão vivencial do filme, que revela os conflitos sociais, culturais e de raça dentro de uma instituição escolar na periferia de Paris, permite ao espectador inteirar-se deste complexo entrechoque de existências.

Kohan acredita que a partir de Entre os Muros da Escola seja possível “pensar algumas perguntas em torno das relações entre os que ocupam o lugar de ensinar na escola e os que estão lá, a princípio, para aprender. No filme, um e outros parecem estrangeiros, não apenas em relação a um lugar, mas em relação recíproca, à instituição e aos significados usualmente atribuídos ao aprender e ensinar”. Por esta razão, sua palestra “Aprender e ensinar, exercícios de estrangeiridade” será uma boa oportunidade para conversarmos sobre esta temática tão presente nos dias atuais.