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quinta-feira, 7 de março de 2013

A verdade tem duas caras

Extra! Extra! Já está no ar o podcast da palestra "A distorção deliberada do conhecimento científico", com o professor do IMS/UERJ Kenneth Camargo, a partir do filme "O informante". Esse fato é incontestável, mas será que todo fato é? Faça agora um passeio pelo mundo interesseiro das verdades científicas e noticiosas.
Clique abaixo para ouvir a palestra (58min.) ou baixe aqui o arquivo zipado (52MB).






sexta-feira, 13 de julho de 2012

A ciência nas margens da ética



No último sábado, o Ciência em Foco exibiu o filme O informante (The insider - E.U.A., 1999), de Michael Mann, seguido da palestra do professor do Instituto de Medicina Social da UERJ, Kenneth Camargo. Baseado na trajetória real do cientista Jeffrey Wigand, o filme serviu de provocação para suscitar uma conversa sobre as distorções pelas quais passa o conhecimento científico no mundo atual, enfatizando suas relações com o mercado e os interesses privados. Sua abordagem se baseia em uma determinada concepção de ciência que recusa a ideia de que a atividade científica se dedica a descobrir e desvendar coisas que sempre existiram ou sempre estiveram lá, aguardando para ser descobertas.

Trata-se de entender a ciência como atividade humana. Quando se percebe a ciência desta forma, somos levados a entender que ela está sujeita a todas as características e elementos próprios à experiência humana, afastada da objetividade e da neutralidade. Nesta perspectiva,  quando a atividade científica é analisada de perto, a imagem do cientista isolado e abnegado não se sustenta. Kenneth procurou compatibilizar esta crítica à ciência com a interferência direcionada à produção científica, promovida por empresas e organizações, que movimentam interesses particulares e nada éticos.

Kenneth evocou uma referência incontornável para se pensar a atividade científica, o filósofo francês Bruno Latour. Para o filósofo, houve um crescente desenvolvimento de um arsenal teórico-metodológico voltado à crítica da ciência, no sentido de proteger a sociedade da excessiva confiança em determinados argumentos ideológicos que se disfarçam de fatos, se passando por algo "científico".  Porém, estas mesmas ferramentas seriam posteriormentes utilizadas por setores que desejam gerar desconfiança na opinião pública, a partir daquilo que é, de fato, científico. A confusão seria gerada a partir do intuito deliberado de distorcer os fatos. Salientando o surgimento da área de relações públicas, Kenneth marcou a atuação do setor como uma estratégia de gerar credibilidade a partir da entrada em cena de uma terceira pessoa no jogo dos argumentos. Como exemplo de frentes de controle a estas estratégias, foi mostrada a iniciativa de jornalistas que mantêm um site de acompanhamento de fontes para mostrar as manipulações que acontecem nos bastidores da ciência. As informações divulgadas pelo personagem do filme, por exemplo, hoje estão disseminadas em sites que veiculam e monitoram estas manipulações.

Pela análise dos documentos específicos da indústria do tabaco, é possível verificar que a indústria financiou uma série de estudos com o objetivo de criar confusão em torno de pesquisas epidemiológicas sobre o prejuízo à saúde causado por seus produtos. Mais assustador é o fato de a indústria do tabaco também recorrer às ciências humanas, financiando cientistas sociais e filósofos para produzirem argumentos em favor da ideia da liberdade de fumar. Financiando cientistas e profissionais para criarem confusões em torno de evidências para as quais não existem controvérsias, a indústria também utiliza artigos plantados em revistas respeitadas que vão servir de material para estratégias de relações públicas em seu favor: como afirma um dos personagens do filme, somos lançados ao mundo de Alice no País nas Maravilhas. Para não concluir deixando uma visão totalmente negativa e corrompida da ciência, Kenneth reafirmou a necessidade de constantemente rever e criticar a produção científica, para que ela continue valendo como nossa melhor aposta.

Nossa próxima sessão acontece no dia 4 de agosto de 2012, com a exibição do filme Corpo (Brasil - 2007), de Rossana Foglia e Rubens Rewald. Teremos a honra e alegria de receber, como convidada do mês, a escritora e psicanalista Maria Rita Kehl, doutora em Psicanálise pela PUC-SP e integrante da Comissão da Verdade, com a palestra O corpo de todos nós. Ela publicou, dentre outros livros, O tempo e o cão, vencedor do Prêmio Jabuti. Imperdível é pouco! Acompanhem nosso blog para maiores informações e sigam a @casadaciencia no Twitter. Anotem na agenda, compartilhem e divulguem! Até a próxima.







quarta-feira, 27 de junho de 2012

Erros científicos


"Em meio ao bombardeio de informações que recebemos, como estabelecer o que é confiável ou não, e, sobretudo, como identificar as tentativas de manipulação a serviço de interesses poderosos, em especial econômicos? Essa, na verdade, é uma pergunta que me faço todos os dias...", Kenneth Camargo – Professor do IMS-UERJ, editor associado do American Journal of Public Health, editor da revista Physis, pesquisador do Grupo de Estudos sobre Ciência e Medicina (UERJ-CNPq) e palestrante do Ciência em Foco de julho 2012.

1) O filme O informante trata de um episódio envolvendo um produtor de TV que luta para trazer a público informações reunidas por um cientista que atuava para uma grade empresa de tabaco. Ao tomar conhecimento de decisões pouco éticas de sua empresa, o cientista se vê num perigoso conflito que pode colocar em risco sua vida. Esta sua posição arriscada diria algo a respeito da imagem do cientista hoje, no mundo globalizado? Podemos dizer que a associação da ciência com as empresas e o mercado é um fenômeno recente?

A chamada "big science" começa com pesado investimento governamental, tanto na Europa quanto nos EUA, mas a partir do pós-segunda guerra mundial o investimento privado começa a ter relevância em alguns setores, como por exemplo a indústria farmacêutica. Nesse sentido, não é novo. O que talvez seja novo é que, com os processos de redução da atuação do Estado, em especial da desregulamentação de vários setores, esse movimento se aprofunda e as corporações ganham cada vez mais poder.

Quanto à imagem do cientista, vejo na mídia a mesma ambiguidade que se vê com relação à ciência, algo que o escritor de ficção científica Isaac Asimov chamou de "complexo de Frankenstein", indicando uma concepção de ciência poderosa, mas que pode estar tanto a serviço do "bem" quanto do "mal". Coisas como a bomba atômica, contaminação ambiental por diversos produtos e processos industriais, retirada de determinados medicamentos do mercado reforçam a percepção negativa. A existência de cientistas que efetivamente abdicaram de princípios éticos em prol de sua conta bancária alimentam essa percepção e levam ao comprometimento da credibilidade da própria ciência... 

2) Em que sentido a relevância e a legitimidade atribuídas ao discurso científico atualmente, propagadas pela mídia e disseminadas no senso comum, contribuem para a manutenção de valores, hierarquias e formas específicas de relação com o mundo? Sempre foi assim? Que consequências e implicações políticas podem ser daí projetadas?

Acredito que há uma ambiguidade fundamental; apresentar algo como "científico" pode ao mesmo tempo afirmar seu valor de verdade e de ameaça. "Sempre" é uma palavra complicada... Nem sempre existiu ciência. O que acho possível afirmar é que esse padrão vem pelo menos do final da década de 50, se não antes, e as novas tecnologias de comunicação contribuem para a rápida difusão de conceitos e ideias de toda ordem. Assim, tem sido possível ao mesmo tempo afirmar alguma coisa como confiável por ser científica quando não é o caso, como minar a cientificidade de algo estabelecido (como foi historicamente a estratégia da indústria do tabaco). 

 3) Ao nos situar, a partir da ficcionalização do real, em um mundo no qual a ciência se mostra a serviço de interesses particulares, quais seriam os elementos necessários (e os possíveis obstáculos) para se pensar uma ética ligada à produção de conhecimento hoje?

Acho que a principal dificuldade está na mercantilização do próprio conhecimento. Este se torna mercadoria, em várias formas, e o estabelecimento de uma postura ética nesse contexto está vinculada, a meu ver, a iniciativas de tornar o conhecimento livre e acessível. Iniciativas como o acesso aberto a artigos científicos, o software livre e aberto e mesmo como a Wikipedia (em que pesem os problemas da mesma) são o antídoto para o controle privado do conhecimento.

4) Roteiros alternativos - espaço dedicado à sugestão de links, textos, vídeos, referências diversas de outros autores/pesquisadores que possam contribuir com a discussão. Para encerrar essa sessão, transcreva, se quiser, uma fala de um pensador que o inspire e/ou seu trabalho.

 Antecipando o material que pretendo apresentar no debate, tenho citado com frequência uma observação de dois sociólogos da ciência, Harry Collins e Trevor Pinch, que escreveram um livro especificamente com uma abordagem crítica da medicina, e lá pelo final dizem o seguinte (tradução minha): “A ciência pode estar errada (…), mas isso não torna a visão oposta correta. Na ausência de pesquisa cuidadosa sobre a visão oposta, a ciência é provavelmente a melhor aposta. Isso é ainda mais provável se a ciência estiver continuamente sob escrutínio.”

Colins H & Pinch T. Dr. Golem: How To Think About Medicine. Chicago: The University of Chicago Press, 2005, p. 202.

5) Gostaria de lançar aos que acompanham nosso cineclube uma pergunta-síntese provocativa acerca da problemática de queira tratar em sua palestra?

Em meio ao bombardeio de informações que recebemos, como estabelecer o que é confiável ou não, e, sobretudo, como identificar as tentativas de manipulação a serviço de interesses poderosos, em especial econômicos? Essa, na verdade, é uma pergunta que me faço todos os dias...

6) Como conhecer mais de suas produções?

Como todo pesquisador brasileiro, tudo o que publico acaba sendo listado no meu currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3585073727110885

quarta-feira, 20 de junho de 2012

desinteresses interessados da ciência


A história, baseada em fatos reais, descreve o propósito do cientista e executivo da indústria do tabaco Jeffrey Wigand (Russell Crowe) e do produtor de um programa de grande audiência da rede de TV americana, Lowell Bergman (Al Pacino), de trazerem a público dados que revelam os efeitos nefastos do fumo sobre a saúde. A denúncia passa a enfrentar poderosos lobbies da indústria tabagista e da mídia, além de revelar os bastidores da “contrainformação científica”.
É nesta quebra de parâmetros de uma suposta ética científica que o professor Kenneth Camargo, do Instituto de Medicina Social da UERJ, vai centrar sua palestra. Afinal, como aplicar uma crítica à ciência, revelando suas instabilidades, se nem todos partilham e até distorcem deliberadamente os mecanismos que lhe dão “cientificidade”?