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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

(des)conhecendo o outro

Mais um podcast saindo do forno! No encontro de maio, o professor do Departamento de Cinema e Vídeo da UFF, Cezar Migliorin, discutiu sobre a complexidade da relação com o outro mediada pelo cinema, após a exibição de As hiper mulheres. Aproveite!

Clique abaixo para ouvir a palestra (72min.) ou baixe aqui o arquivo zipado (67MB).






sábado, 12 de maio de 2012

O conhecimento em transe

No último sábado, dia 05/05, o Ciência em Foco exibiu o filme As hiper mulheres, de Leonardo Sette, Carlos Fausto e Takumã Kuikuro, seguido da palestra A potência de um filme comum, ministrada pelo professor do Departamento de Cinema e Vídeo da UFF, Cezar Migliorin. Chamando atenção para o desafio de se falar sobre um filme ao mesmo tempo tão próximo e tão distante de nós, Cezar iniciou sua fala marcando a relação do filme com o cinema brasileiro contemporâneo. Tanto neste filme quanto em outras produções atuais do cinema documentário, percebe-se uma relação entre a história que se conta e a encenação da vida dos personagens, configurando outro estatuto para a imagem. No filme, os modos de vida dos índios aparecem de forma não distanciada, atrelados às fabulações que eles fazem sobre si mesmos: eles não aparecem em cena como objetos a serem documentados, mas como agentes criadores do filme, como produtores das imagens.

Configura-se assim uma nova forma de se entender a imagem, cujas características dialogam com a história do cinema, sobretudo com práticas trazidas com o cinema moderno do pós-guerra. Estes elementos, veremos, também dizem respeito à relação entre a ciência e a ficção. Os primeiros filmes da história do documentário eram caracterizados por tentativas de se esconder a presença da filmagem, com a intenção de conseguir registrar a integralidade do documentado. Com o cinema moderno, a própria filmagem se faz presente como forma de se aproximar do universo filmado, diluindo a pureza e a objetividade que vigoravam nas anteriores tentativas de se abarcar a totalidade do objeto a ser documentado. Cezar trouxe o exemplo de Jean Rouch (1917-2004), cineasta e antropólogo francês.

Em seus filmes, Rouch colocava em cena o próprio conhecimento se construindo no contato com o outro, quando cineasta e espectador são colocados no lugar de quem acompanha o movimento do próprio conhecimento se inventando. Esta prática relacionista marca uma importante mudança de perspectiva com relação ao conhecimento: ele não é tomado como algo dado, natural, mas algo do qual eu participo e acompanho a invenção. As hiper mulheres parece se dividir em dois momentos que espelham e marcam essa passagem: no primeiro, a imagem parece organizada segundo regras do cinema clássico, com a presença de planos e contra-planos, a continuidade e a organização espacial definidas de antemão. Deixa-se entrever, no entanto, a proximidade entre os que são filmados e aqueles que filmam, abrindo espaço para um elemento de desorganização que explicita as operações da ficção. A partir da segunda metade, quando a dança e a música invadem a aldeia, a câmera é também embalada pelo movimento contagiante da festa e seus preparativos, quebrando a rigidez do primeiro momento. A festa marcaria uma mistura entre a encenação e o cotidiano, entre a memória e a fabulação, quando os limites da continuidade já não vigoram.

A realidade, portanto, seria inventada em negociação com os artifícios da ficção. Neste sentido, busca-se inspiração na lição da obra de Jean Rouch, cujos filmes encarnavam a ideia de que só se faz ciência - no caso, a etnografia - por meio de um gesto ficcional. Através dos deslocamentos dos lugares de fala, uma vez destituídos de hierarquias, a ciência e a imaginação podem ser reaproximadas, desembocando em uma espécie de transe que conecta os sujeitos e o seu entorno. O aspecto político do filme se associa à capacidade de produzir vivências comuns a partir do cinema, promovendo o engajamento pela criação de comunidade. No caso de As hiper mulheres, essa comunidade é evidenciada pela ausência de um corte explícito que separa dois mundos: o dos índios e o dos brancos, por exemplo. O índio está ali como alguém muito próximo, atuando e se inventando junto com o filme, produzindo modos de viver junto que dependam da força da invenção, e não de lugares pré-fixados.

Agradecemos imensamente o apoio dos realizadores do filme, e o apoio da APILRJ (Associação de Profissionais Intérpretes de Libras do Rio de Janeiro). Nossa próxima sessão acontecerá no dia 2 de junho de 2012, com o filme Árido Movie (2006), de Lírio Ferreira. Aquecendo e antecipando as discussões em torno da Rio+20, teremos a honra de receber, como convidado do mês, o professor da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO-UFRJ), Renzo Taddei. Ele é doutor em Antropologia pela Univ. de Columbia, em Nova York, pesquisador da Coordenação Interdisciplinar de Estudos Contemporâneos (ECO-UFRJ) e membro do Grupo de Estudos de Antropologia da Ciência e Tecnologia (GEACT). Ele apresentará a palestra O clima em nossas histórias e nossas histórias sobre o clima. Anote na agenda e divulgue! Até lá.



quarta-feira, 18 de abril de 2012

O cinema e o conhecimento do outro


O cineclube apresenta dia 5 de maio, às 16h, As hiper mulheres, de Carlos Fausto, Leo Sette e Takumã Kuikuro, seguido da palestra “A potência de um filme comum”, com Cezar Migliorin, professor do Departamento de Cinema e Vídeo da UFF.

Fugindo a clichês de documentários sobre aldeias do Alto Xingu (MT), o filme é realizado por e com indígenas que ganham intimidade e liberdade diante da câmera, e registra uma valiosa tradição: o Jamurikumalu, maior ritual feminino da região. No enredo, um velho que teme pela morte da esposa idosa pede que seu sobrinho realize o Jamurikumalu, para que ela cante uma última vez. As mulheres do grupo começam os ensaios enquanto a única cantora que de fato sabe todas as músicas se encontra gravemente doente.

Segundo o antropólogo Carlos Fausto, um dos realizadores, “o filme fala de música, memória e transmissão do conhecimento, que passa pelo afeto das relações pessoais”. Neste sentido, uma oportunidade singular para que o professor Cezar Migliorin nos convide a pensar “a complexidade dessa relação com o outro mediada pelo cinema e pelo desejo de conhecimento sobre o outro e com o outro”.

Ganhador do Prêmio de Melhor Longa-metragem Documentário no Festcine Goiânia em 2011 e Melhor Montagem e Prêmio Especial do Júri no Festival de Gramado, também em 2011.